quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Precisamos falar sobre Kevin

Se eu fosse um gato, estaria sufocada com a bola de pelos que teria engolido.
É mais ou menos esta a minha sensação desde que virei a última página deste livro.
A entrada na adolescência de minha filha, com todas as dificuldades que estão se apresentando, me levou a formular possibilidades de que as coisas não venham a ser tão cor-de-rosa como um quarto de menininha decorado com ilusões por mamaezinhas cheias de amor para dar. Eu decorei de amarelo o da minha. Talvez, na época, por saber que havia um gosto amargo no meio da alegria.
Do ponto de vista de uma mãe com ambiguidades, e , portanto, de um patamar comum com Eva, comecei a leitura deste livro. No qual, em cada página busquei muito mais as diferenças do que as identificações. Cheguei, num determinado momento, a fazer uma lista delas, das diferenças entre as pessoas do livro e as da minha vida. E, com alívio, concluí que são histórias diferentes demais. Demais. Mas, surpresa, terminei o livro em outro lugar, no lugar de Franklin, que fechou os olhos e arredondou a verdade. É como se eu tivesse descoberto que uma "estorinha" que eu me contava não era verdadeira, e a conclusão desta revelação é que se a vida não é cor de rosa, não é porque em algum momento eu não fiz a minha parte direito escolhendo o amarelo...
Eu posso ter feito escolhas erradas ou mesmo não ter conseguido escolher, e, por tudo isso, estou disposta a pagar a fatura.
O que eu não posso fazer é fugir da verdade, pois esta fatura é impagavel.
"Eu com medo da verdade" é demais para mim. Inacreditável. Se uma das identidades que escolhi ter em meu projeto existêncial era o da mulher que apesar de todas as suas fraquezas sempre acreditou e buscou a verdade, e disto retirava minhas forças. Bem, tenho que aprender a olhar para as coisas como são, mesmo que eu comece meio de esguelha ou então com óculos escuros FPS150, é hora de permitir, me permitir acima de tudo. Pagar a fatura comigo mesma.
Ainda tenho esta doce ilusão que se eu consertar as coisas agora vou conseguir assegurar um futuro, senão rosa, pelo menos em cores vivas.
Quando eu conseguir enquadrar este sentimento apenas no terreno da esperança e não mais no da ilusão, acho que será mais provável um resultado menos trágico. Porque há uma tragédia na liberdade do outro decidir por ele mesmo. Porque a minha filha pode decidir, inclusive, me magoar.

p.s. preciso dizer que estou doida para ler o próximo livro de Lionel Shriver?

3 comentários:

hellomotta disse...

escolhas...
tenho medo de ter medo das minhas.

Mulher Asterísco disse...

O medo não é bom conselheiro

J Berçani disse...

Então recomendo que leia "O mundo pós-aniversário" da mesma autora