terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Anotações de leitura (1)

Das leituras de As Mulheres Proibidas, O Incesto em Eça de Queiroz de Edmundo Moniz e Tragédia na Rua das Flores de Eça de Queiroz
Para a compreensão da produção literaria sobre relações incestuosas, tem uma idéia que Edmundo cita de Freud em relação a Edipo (não achei a citação para copiar, vai o que recordo de memória...ai Alzheimer, não seja cruel comigo) "somente aqueles que mantem o desejo incestuoso no terreno da fantasia podem ter paz". *(de outra forma é a mesma idéia que  li no resumo de Enigma do Incesto de Laure Razon, que o incesto consumado não é a realização de um desejo edipiano, ele aniquila essa fantasia, transformada em traumatismo). Eu avanço meus pensamentos numa linha moralista, a la Nelson Rodrigues; a literatura sobre relações incestuosas é a realização da fantasia edipiana no terreno da fantasia e portanto é libertadora do desejo neurótico.
Mas voltando ao Livro Mulheres Proibidas, nele está frisado que Eça matou o pai antes do inicio de Tragédia na Rua das Flores para permitir o incesto. Tal como em Edipo, era necessário matar o pai para transar com a mãe*( a mesma idéia em o Homem dos Ratos exclama quando tem a primeira relação - neste caso, não com a mãe: + ou - Que maravilha, por uma coisa como esta é possível matar o pai!) , e neste livro o trabalho foi feito pelo próprio autor e não pelo personagem. Para Edmundo o que está em questão aqui é o desejo edipiano do autor, que não conheceu a própria mãe, e que deixa sua assinatura. Em vários momentos ele estabelece paralelos com a vida de Eça que foi impedido de casar com a prima por causa dos laços de parentesco ... (Os Maias). São as mulheres que são proibidas a Eça que voltam em literatura. Esta é a ênfase do autor.
Mas mesmo de para realizar a fantasia no terreno da literatura é preciso matar o PAI. O desenlace das tramas é dado pelo lugar do pai morto sendo ocupado pelo  substituto. Em tragédia... é o tio,que, ao revelar a Genoveva que Victor é seu filho, poe fim ao incesto e evita o casamento dos dois. Genoveva se mata. A mulher incestuosa é punida. Edmundo chama atenção ao fato de somente a mulher ser punida. Victor permanece ignorante sobre o incesto. Porém, como se atém às mulheres, Edmundo não se detém em Timóteo... Pela leitura de Tragédia eu destacaria que o incesto não chega as últimas consequencias (casamento, etc...) justamente porque o Lugar do pai como estabelecedor da ordem, da regra, do contrato social é reestabelecido. Em uma passagem sobre Timóteo é mostrada sua excessiva ternura e falta de rédeas com Victor, (tal qual uma mãe que mima demais, segundo Eça) permitindo um comportamento duvidoso da parte do sobrinho. É quando Timoteo abre mão da pusilanimidade que o incesto é coibido.
Idéia retida por mim: Somente a ausência do pai (o pai fora da lugar de pai, o vácuo no lugar do pai - o vazio do pai é o vazio da lei) permitiu o incesto em Tragédia da Rua das Flores... e em Edipo também...
Contraponto: Em Lavoura Arcaica o incesto é realizado com o pai vivo. Porque o autor não matou o pai?

Um comentário:

Mulher Asterísco disse...

não esquecer de baixar "longe da terra queimada"