domingo, 25 de julho de 2010

Ventania


Ventania causava este efeito nela, levava para longe os outros pensamentos.

Na primeira vez que o viu foi assim. Irreverente e estabanado. Trotava enquanto os outros marchavam. Ele lhe era familiar, talvez fosse a camiseta com a foto, que ela tão bem conhecia, de Lênin com os dizeres “ Sonhos, acredite neles”. Bastou isso para ele ocupar um lugar ali num canto de sua cabeça. Ele não sabia nada dela. Ainda era invisível. Mas a vaidade masculina é um veneno. Aos poucos, ele percebeu que o olhar dela para ele ia um pouco além. Ficou curioso. E foi só se deter um pouco mais nela para reconhecê-la também. E não escondeu que ela o impressionara.

Mas ele tinha outros planos e seguiu em direção a outras pradarias. Ela mandou uma mensagem de boa viagem. Sonhos, acredite neles. Ele ficou lá, escondido, no mundo dos seus sonhos, e era lá que de vez em quando ele aparecia para dar um alô.

Mas ele era homem e não queria deixar escapar uma chance. Algum tempo depois, quis vê-la. Ela aceitou que ele tentasse seduzi-la. Não costumava ser assim. Impulsiva, tinha tomado a frente sempre que se interessava em alguém. Ele conduziu a dança do acasalamento até chegarem num beijo. Ela se surpreendeu, pois não imaginava que aquele homem de vento soubesse beijar. Não passaram disso - e é provável que nunca passem. Ele sumiu. Ela deixou. Não queria tirá-lo de lá, do mundo da fantasia. E uma das fantasias que criou era que se fosse para acontecer, ele voltaria.

Ele voltou. Desta vez, trouxe um arsenal para não deixá-la atrapalhar sua rota. Desejava aquela mulher, mas dentro de limites bem estabelecidos. Não queria mudar o caminho que tinha escolhido e que o fazia se reconhecer. Ele explicou o seu sistema. Ela concordou que devia funcionar bem e até teve inveja dele conseguir ser tão pragmático e ter a vida que queria ter sem deixar tempestades se aproximarem. Foi aí que ele disse algo devastador: não acreditava no amor.

Ventania causava este efeito nela, levava para longe os outros pensamentos. E agora ela não tirava mais da cabeça a dúvida sobre o que era o amor. Repassou um milhão de vezes esta conversa. No esquema dele havia paixão, tesão e companheirismo. Ele dizia saber o lugar e a hora de cada coisa. Ela disse que se embaralhava com isso tudo e que sempre escolhera a hora ou a pessoa errada e também que em suas tempestades, ela atribuía menos nomes e mais significados. Ela citou a memória poética de Kundera. Ele desqualificou o autor por pura patrulha. Ele falou de um filme e se despediram. Ela viu dois e chorou pelo amor e pela dor dos personagens. Por fim, concluiu que o sistema dele tinha um erro. Havia um sentido na arte, no cinema e na literatura. Poesia era menos um estilo de escrever e mais uma forma de batizar a fome de amor. Ela já tinha aprendido, por observação, que a fantasia do amor preenchia aquele lugar vazio que ela tão bem conhecia nela e reconhecia nos outros. Se a fome existe e o amor não, ela, um dia, ainda inventaria o amor.

Ficou tranqüila e deu um beijo de boa noite naquele cantinho de sua cabeça no qual ainda moravam seus sonhos. Ele causava este efeito nela.

8 comentários:

Renato Orlandi disse...

É triste quando deixamos o vento levar esses sentimentos, mas o que há de se fazer, nem sempre é nossa culpa não é mesmo... Bjoo!

Lobo Cinzento disse...

Sintonia é tudo nessa vida. E não é de todo ruim quando a pessoa deixa seus sentimentos irem embora. Porque as vezes, conseguimos resgatá-los nas pessoas sem elas próprias se darem conta.

Mesmo que seja no nosso mundo de sonhos.

Beijos o+*!

Visão disse...

Eu ainda me pergunto se o amor num eh uma forma de se auto-destruir.

hellomotta disse...

Expresso Nem Froid x Prata da Casa. Já sabe, né?

Mulher Asterísco disse...

Hello, me ajuda a dar uma lapidada no texto e vê os prazos de inscrição.

Saudade
bjk

hellomotta disse...

Inscrições para as seis modalidades do Prata da Casa 2010 estão abertas e vão até 6/8.

S.A.M disse...

Amor, amor...

Nessa tarde nebulosa e chuviscada paulistana, ouvir de amor é um convite a um bom café e um queixo enrolado no pascoço NOW!

Vaca Jersey disse...

Volteiiiiiiiiiiiii!!!
Mas tipo assim: casa comigo? Eu me re-re-converto!!! Hahahahaha! Bjozz!