quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Precisamos falar sobre a mãe de Kevin?

Bem...se você espera uma resenha de cinema, não aqui. Sou dessas que não entende de cinema e que julga um filme apenas de acordo com suas sensações, tipo: gostei ou não gostei. Sou do tipo que reclama das adaptações de livros para o cinema e não consegue distinguir os diferentes aspectos de um filme. Dito isto, que fique claro que adoro ir ao cinema, just for fun.

Ansiosa para assistir Precisamos falar com Kevin, cheguei no cinema com grande espectativa em função das críticas que tinha lido. Saí frustrada. Não vou entrar no mérito de se o filme é bom, se as interpretações são geniais, se os atores são maravilhosos, se a direção é contundente...isto é para quem entende. Eu quero registrar o meu incômodo.

Quando saí do cinema, eu tinha visto a mesma história do livro, mas não vi Eva Kachadourian. Não a Eva com quem partilhei dias e noites lendo suas corajosas cartas para Franklin.
A Eva que eu vi nas telas era uma mulher fraca, covarde, a qual ficou muito fácil atribuir uma grande responsabilidade na patologia do filho. A mulher corajosa, inteligente, investigativa e capaz de entender como a sociedade das sub-celebridades acaba retroalimentando fenômenos como os "garotos columbine" desapareceu. O cérebro cedeu seu lugar à culpa. Não que não houvesse um lugar para a culpa na história contada por uma mãe de um psicopata juvenil e até mesmo para sua expiação...até aí eu e o filme fomos juntos. O problema começa - na minha opinião - quando só existe este lugar.

O grande mérito do livro, na minha opinião, tinha sido o de desglamourizar a maternidade, mostrando que nem sempre ser mãe é um conto de fadas, um desejo absoluto para as mulheres. Eva é a mãe ambigua. Mãe a contragosto. Preferia sua liberdade, suas viagens, seu trabalho e seu marido só para si. Era uma mulher feliz sendo livre. Por amor a Franklin, aceitou ser mãe, mas isto era tentar se enquadrar num papel ao qual se sentia desconfortável. Qual o problema nisso? Não é todo mundo que tem vocação para conversar com a própria barriga ou passar o dia fazendo tatibitati com bebezinhos... isto por acaso é uma sentença de impossibilidade de ter um filho? Ou um atestado de doença mental/social para o fedelho? Não. Então, há que se colocar alguns pingos nos is.

A dinâmica social. Aqui eu vou repetir a velha cantilena feminista das socialistas do início do século, que, infelizmente parece esquecida neste mundo em que empoderar a mulher se tornou enlouquecer numa quadrupla jornada. O fato da criança ser gerada no corpo da mulher apenas dá a mulher o direito de decidir sobre o que acontece no seu corpo. Depois que nasce, uma criança é, na verdade, filha de todos os seres humanos, pois cada uma e todas elas significam a humanidade se renovando. A sobrevivência da raça humana é uma responsabilidade coletiva e, portanto, não pode ser atribuida a individuos só porque estas já tiveram o trabalho de carregar a criança em sua barriga. Não somos animais para viver de acordo com instintos. O ser humano produz e se reproduz na Cultura. Desta forma, o cuidado com as crianças deveria ser o mais social e coletivo possível, liberando a mulher destas tarefas. Creches e escolas em tempo integral, com esporte, lazer, alimentação, tranporte escolar, cuidado médico, assistência social, lavanderias...tudo que envolve o cuidado com as crianças ( e idosos tb, mas isto é para outro post) precisaria ser visto como uma obrigação da sociedade para garantir as melhores condições de sobrevivência e preparo das futuras gerações. Porque a minha tarefa para com as futuras gerações é bem maior do que só preparar a minha filha para ter um bom futuro, porque se os outros de sua geração se fuderem, não tenho dúvidas que vão arrastá-la para o fundo do poço junto. Digo isto para fincar pé na tese de que ser mãe não pode ser visto como um sacerdócio que acaba com a liberdade das mulheres e as obriga a conviverem com crianças o dia inteiro ou então se matarem para dar conta de suas tarefas de mãe e profissional e sufocarem de culpa por não darem conta de tudo. Esta posição da maternidade - cheia de idealizações, culpas e angustias - é absolutamente cultural e serve muito bem para a finalidade de economizar milhões em equipamentos sociais e serviços públicos de qualidade.

A dinâmica familiar. Voltemos ao livro. No caso do Kevin em questão, havia mais do que uma relação dificil entre mãe e filho. O papel do pai, permissivo, tem uma importância fundamental na dinâmica entre Eva e Kevin. Franklin sempre foi o obstáculo para que este vínculo se estabelecesse, pois tenta compensar a falta de "instinto maternal" de Eva. Assim, Franklin sai da posição de pai - detentor da lei. Posição subjetiva esta, que fica vazia, pois tampouco Eva consegue ocupar já que Franklin está lá, obstruindo. Já disseram antes e eu repito, toda compensação é uma deformação. As dificuldades iniciais entre Eva e Kevin não seriam diferentes das dificuldades de alguma mãe que tivesse depressão pos-parto e no meio de sua confusão exagerasse atribuindo a um bebê características adultas como chorar de propósito só para perturbá-la. O que desestrutura este relacionamento é o medo que Eva tem de perder o amor de Franklin por não ser uma boa mãe, medo fundamentado no fato de Franklin ser incapaz de ver defeitos no filho. Eva ama Franklin, Franklin ama Kevin e Kevin tem raiva por Eva amar Franklin e não ama ninguém. Por isto, no livro, Eva escreve a Franklin. Porque não é no relacionamento mãe-filho que está a chave doméstica da investigação que Eva faz sobre o comportamento de Kevin, mas sim, na dinâmica familiar. A Eva do livro tem coragem de ver a sua responsabilidade nesta dinâmica, mas não é indulgente com os demais. A Eva do filme é absoluta em sua culpa.

Eu poderia ter gostado do filme se não tivesse lido o livro e se ele não tivesse significado para mim o início de uma reflexão que marcou um ponto de ruptura com a minha própria culpa de mãe. Acho que até gostei do filme, principalmente da cena final, mas preciso reclamar um pouco, afinal estou ficando velha e rabugenta e aqui eu posso falar o que eu quiser mesmo!

7 comentários:

E ヅ disse...

deu vontade de ver o filme e de ler o livro (como se fossem duas histórias separadas) porque sua "resenha" ficou supimpa!

culpas... ando lidando muito com isso ultimamente.

E ヅ disse...

SERVE!!! :-)

Autor disse...

Hum, percepções diferentes. Engraçado que eu vi a mesmíssima Eva que li no livro na pele de Tilda Swington.
Apesar de comparar as obras, eu sempre tento separar os veículos na minha cabeça. Por isso gostei tanto de ambos.

A propósito, estou no meio de O Mundo Pós-Aniversário.
Cara, fantástico! Que autora foda esse Lionel Shiver, né?

Bjos

Fred disse...

Vi o trailer e fiquei HIPER afim de assistir. E pode até ficar "velha e rabugenta" mas continua cada dia mais gostosa. Euachosim! Bjo grande, mama Asterisca!

Rafa disse...

É um truque machista muito esperto ter inventado este tal de "instinto materno", como você bem disse, livre a cara dos homens jogando-os sobre as mulheres. Eu não sabia nada sobre o livro ou o filme, mas fiquei com vontade de ver só por causa da Tida que eu amo!

Bj

Fred disse...

Nem vem que teu babaganoush é só pra mim, VISSE? Hahahahahah! Bjosssssssssss!

Cara Comum disse...

Bom, só me resta fazer ctrl + c, ctrl + v no comentário do Edu....

Abraços!!!