segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A rezadeira

Preconceito contra funk e rap. Acabei formando um após escutar algumas preciosidades  como "pentada violenta", "chá de cu" ou então "tudo pelo baseado eu faço" nas músicas que os jovens aqui do Rio gostam de ouvir ou de dançar.  Então basta escutar uma cadência meio batida e uma letra meio falada que já torço o nariz. Respeito o direito de minha filha e os demais jovens escutarem o que quiserem, mas não omito a minha opinião  e sempre torci, em segredo, que existisse um lugar em que estes mesmos jovens convivessem  com algo que não fosse apenas apologia de drogas ou sexo. Mas preconceito é ignorância. E eu não escapei dela.
Foi numa tentativa de retribuir a partilha de preferências musicais, já que a caçula acabou ficando fã de Ira e até de Legião Urbana, que acabei escutando uma música que ela me apresentou dizendo que chorava muito pensando em mim. Véia, do Projota, contava a história de um menino que perdeu mãe. Como esperado, não gostei da música. Credo! A comparação com a mãe morta me deu até arrepios. Mas não pude deixar de lembrar que quando eu também era só filha, o medo de perder a mãe era uma uma de minhas assombrações. Foi assim que eu escutei mais uma e mais outra e outra. Algumas horas depois, eu estava com o refrão de uma das músicas na cabeça e com uma dúvida sobre alguma coisa na letra que não tinha entendido direito. Como sempre, consultei o oráculo.  Google me confirmou que a "rezadeira" era a mãe do "menino", coloquei a música para tocar e acompanhei a letra. Desta vez, fui eu quem me emocionei.
http://grooveshark.com/s/A+Rezadeira/3xFrHe?src=5
Desde então, "deixa o menino jogar que é sexta-feira, pra proteger é que existe a rezadeira" tem sido cantarolado em minha cabeça noite e dia. Esta aproximação emocional com a história de uma mãe que pode salvar seu filho, me remeteu a dor das milhares de mães que perdem seus filhos, a maioria jovens negros, para a violência urbana. Eu mesma fui testemunha da dor da mãe de Anderson, sindicalista negro, cujo assassinato continua sem solução desde 2006. Independente da inocência ou crime dos jovens assassinados, suas mães são sempre vítimas, no mínimo, de uma dor devastadora. Esta dor já tinha sido apontada por Chico na maravilhosa "meu guri". Mas agora eu não estava ouvindo um poeta intectualizado de classe média tentando se aproximar de uma outra realidade - o que só mostra que os verdadeiros artistas tem o dom da transcendencia. O "eu vi", que abre a maior parte dos versos em "A Rezadeira", explica o lugar de onde Projota fala.
Pesquisei um pouco mais e li melhor as letras de Véia, D.Lourdes, Guerreira e Projeção para Elas. Fui arrebatada. O respeito à mulher em todos os seus papeis jogou por terra o preconceito de que eu já havia formado de que no funk e no rap, as mulheres ocupavam um papel exclusivamente sexual. A mulher de Projota é inteira e ama. De todas as formas. Qual o amor maior do que uma mãe que consegue só com a força da sua oração ressucitar seu filho? Ou qual mãe não sonha com poder fazer isso, caso se depare com um momento destes?
Mas não fui ganha apenas pela mensagem, pela forma também. Pelas imagens. Em poucas palavras, uma história foi contada com cheiro e cor. Palavras escolhidas com precisão para passar a emoção.  Eu me senti diante de um tesouro.  E, hoje, só posso ficar feliz, que no meio de tanto lixo, minha filha tenha me mostrado uma flor tão rara.
O que só confirma minha teoria de que devemos deixar os jovens produzirem sem tolhi-los, a liberdade de criação é a matéria prima da qual a verdadeira arte se alimenta.

A Rezadeira
Projota

Suas pernas foram feitas pra correr, neguim, então vai
Degola o estirante, embola na rabiola e traz
Seus olhos foram feitos pra enxergar,
Toda vez que uma mina passar
Sua boca foi feita pra xavecar, então vai e traz
Porque eu já vi sua situação, suas panela no fogão,
Sua chinela sem cordão, sua favela seu colchão,
Sua sequela, podridão, seu caderno sem lição,
Sua rabeira nos busão, seu roubo seu ganha-pão,
Sua fuga com seus irmãos, sua comemoração,
Vi seu bute bonitão, seu futebol de salão
Sua garra pela função, sua marra, sua perdição
E até chorei com a sua primeira detenção.

Vagabundo vai correr, vai brincar
Vai chover, vai sujar
Dexa o menino jogar, que é sexta feira
Pra proteger é que existe a rezadera
A rezadeira vai rezar, rezadeira, vai rezar, rezadeira...

Mas essas grade num te prendem, né neguim, vem, volta pra "nóis"
Dexa os problema de lado, compra uma moto veloz
Só que pra ter moto veloz, né, tem que ter um dim
E foi assim, foi assim que eu vi seu fim
Porque eu vi sua vontade, eu vi seu plano
Eu vi você, vi seus mano
Eu vi o disfarce e vi seu cano
E vi você atirando
Eu vi correndo, vi trocando,
Se escondendo, se assustando
Eu vi ali, te vi orando
E vi o seu peito sangrando
Eu vi seus amigo saindo, seus amigo te deixando
Sua coragem se esvaindo, e o seu olho fechando
Eu vi seu choro, vi seu medo por dentro
Te dominando e vi meia dúzia de anjos te buscando.

Vagabundo vai correr, vai brincar
Vai chover, vai sujar
Dexa o menino jogar, que é sexta feira
Pra proteger é que existe a rezadera
A rezadeira vai rezar, rezadeira, vai rezar, rezadeira...

E ela teve que te ver neguim, sangrando no chão
Ela tentou te socorrer, mas um pronto socorro não
Ela atravessou o isolamento, sem caô
Eu vi quando ela empurrou um policial e ajoelhou
Eu vi também ela chorando no seu sangue
Gritando um tal senhor
Cantando alto e claro aquele bonito louvor
Encarando seu espírito ao lado do seu corpo, em pé
Implorando pra que se arrependa se puder
E eu vi o seu corpo tremendo com o seu coração parado
E uma lágrima escorrendo com o seu olho fechado
Eu vi o povo todo olhando estasiado
E vi cada uma das câmeras pifando pro segredo ser guardado
A rezadeira parou de cantar, e pra você sorriu
Os anjos voltaram pro céu, e então o seu olho se abriu
E eu chorei testemunhando com vocês
Quando eu vi sua mãe te dando a luz pela segunda vez

9 comentários:

Fred disse...

Muito bom quando a gente se permite mudar de opinião... ou ao menos repensá-la, nzé? Vou conferir a rezadeira... hehehe! Um beijo - cheio de boas preces - pra ti, minha querida!

Fred disse...

Aston é bom, nzé? BeijAs, gatona!

Fred disse...

Nega... adorei teu comment que - mais uma vez - confirma o quanto tu és singular e especial. Amo-te, Asteriscona! Bjonasssssssssss!!

Cara Comum disse...

Olha, apaixonei, viu? Eu já me deixei entregar ao "pancadão" e agora tenho mais um motivo pra gostar...

Danilo Dmol disse...

Realmente não podemos ter preconceitos com gêneros musicais, que bom que você conseguiu ver essa beleza. Tem muitos rap que tocam os corações do público, que tocam no corações de jovens que serão o nosso futuro, que tanto nos preocupamos.

Você tem ótimas publicações :D

Anônimo disse...

Eu acho essa letra muito bonita. Me arrepio toda de ouvi-lá. Pfta *-*

Laanyy disse...

Tem um ano que começei a ouvir projota e desde entao naum paro mais... as musicas dele tocam a gente eu amo muito ele...

O+* disse...

Eu tenho uma amiga que conta que sua mãe, com 14 filhos, dizia que os criava rezando, porque ela não tinha condições de cuidar de um por um em todos os momentos. Por mais que eu não tenha religião, posso entender completamente o que a levou a encontrar esta solução...

NegoJ disse...

Po legal que você tenha mudado um pouco de opinião tem que ter humildade e inteligência pra assumir isso. Isto serve pra provar que RAP não é só coisa de vagabundo, mas também é cultura e história!!